Santa Cruz do Capibaribe, Brasil – Muito antes de o sol da manhã queimar a paisagem semiárida do Agreste de Pernambuco, um tipo diferente de energia ilumina Santa Cruz do Capibaribe.
Por Jardel Cassimiro Correio 101
Milhares de faróis cortam a escuridão, convergindo para um colosso de concreto e aço de 120.000 metros quadrados: o Moda Center, o maior centro atacadista de confecções do Brasil. Aqui, duas vezes por semana, uma cidade dentro da cidade ganha vida, impulsionada por um motor econômico que a consolidou como o segundo maior polo de confecções do país, atrás apenas da metrópole de São Paulo.
Para os desavisados, é uma feira. Para as dezenas de milhares de compradores que chegam em ônibus fretados de todos os cantos do Brasil, é o epicentro de seus negócios. E para Santa Cruz do Capibaribe, é a manifestação de uma identidade econômica forjada ao longo de décadas, que lhe rendeu o título de "Capital da Sulanca" — um termo local para roupas produzidas em massa e a preços acessíveis, que se tornou sinônimo de oportunidade.
"Isso aqui é a realização de um sonho que começou com um quilo de malha", conta Clea Jaci da Silva, de 50 anos, fundadora da marca de moda praia Ondas. A história dela espelha a da própria cidade. Tendo enfrentado uma infância de extrema pobreza após a perda da mãe, ela viu na "sulanca" sua rota de fuga. "Comprei o tecido, fiz 15 camisetas e vendi todas na feira. Com o dinheiro, comprei dois quilos. E assim, nunca mais parei." Hoje, sua empresa é uma das milhares que formam o ecossistema têxtil da região, um testemunho da resiliência e do empreendedorismo que definem este lugar.
A escala da operação é difícil de compreender. O Moda Center abriga mais de 10.000 pontos comerciais, entre boxes e lojas, que, nos períodos de pico, chegam a receber mais de 150.000 clientes por semana. O volume de negócios é tão significativo que o setor têxtil e de confecções de Pernambuco registrou, em janeiro de 2025, a maior arrecadação de ICMS de sua história, com R$ 126,6 milhões, superando setores tradicionalmente fortes como supermercados e medicamentos.
Esse sucesso não nasceu do acaso. É o resultado de um ecossistema completo que evoluiu em torno da indústria. Pequenas oficinas de costura em garagens operam em simbiose com fábricas de médio e grande porte. Lojas que vendem aviamentos e tecidos se espalham pelas ruas, enquanto empresas de logística garantem que milhões de peças de vestuário cheguem a seus destinos finais, das capitais do Sudeste a pequenas cidades na Amazônia.
"Criamos uma cadeia produtiva inteira no meio do Agreste", explica um gerente de produção que supervisiona uma linha de montagem de jeans, preferindo não ser identificado. "A matéria-prima chega, é transformada, e o comprador vem até a nossa porta. O Moda Center é a nossa grande vitrine, mas o trabalho acontece em cada rua desta cidade."
Essa especialização transformou Santa Cruz do Capibaribe em um caso de estudo sobre desenvolvimento econômico localizado. Com uma população de pouco mais de 104 mil habitantes e um PIB de R$ 1,9 bilhão, a cidade demonstra um dinamismo que contrasta com muitas outras áreas do interior do Nordeste.
No entanto, o polo enfrenta os desafios da modernidade. A concorrência com produtos importados, especialmente da Ásia, exige uma constante busca por eficiência e qualidade. A formalização da mão de obra, em um setor que cresceu a partir da informalidade, continua a ser um processo complexo. Além disso, as demandas por práticas mais sustentáveis e a transformação digital no varejo pressionam os produtores locais a inovar.
Em resposta, iniciativas como o programa "Exporta Mais Brasil", promovido pela ApexBrasil, buscaram, em meados de 2025, conectar produtores locais a compradores internacionais, abrindo novas fronteiras para a moda do Agreste. O governo estadual também tem anunciado investimentos na infraestrutura da região, reconhecendo a importância estratégica do polo.
Apesar dos desafios globais e das complexidades locais, o sentimento em Santa Cruz do Capibaribe permanece de um otimismo obstinado. É a mesma determinação que permitiu a Clea Jaci transformar um quilo de malha em uma empresa de sucesso.
Ao amanhecer, enquanto os últimos ônibus de sacoleiros partem, carregados de mercadorias que vestirão milhões de brasileiros, o ritmo frenético do Moda Center diminui. Mas a cidade não para. Nas milhares de fábricas e oficinas, o som das máquinas de costura já começou, tecendo não apenas roupas, mas o futuro de uma das economias mais vibrantes e impressionantes do Brasil.
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