Apesar de origens distintas, turcos e romani compartilham valores familiares, práticas matrimoniais e lideranças comunitárias que atravessaram séculos de convivência e intercâmbio cultural.
Por Jardel Cassimiro — Correio 101
A convivência secular entre turcos e ciganos deixou marcas profundas não apenas na aparência, mas sobretudo nos costumes e na vida social. Embora separados por origens geográficas e étnicas distintas, os dois povos revelam impressionantes semelhanças em suas estruturas familiares, tradições matrimoniais e formas de liderança comunitária.
Família como núcleo central
Para ambos, a família é o eixo em torno do qual tudo se organiza. Entre os turcos, o respeito aos mais velhos é lei: o patriarca ou matriarca exerce papel decisivo em decisões que vão desde a vida doméstica até os rumos dos negócios. Entre os ciganos, a figura do ancião também é sagrada, sendo consultada em momentos de conflito ou celebração. A ideia de “família extensa” — onde primos, tios e sobrinhos se tratam como irmãos — é comum nos dois grupos.
Tradições matrimoniais
O casamento ocupa posição de destaque tanto para turcos quanto para ciganos, não apenas como união entre duas pessoas, mas como pacto entre famílias. Nos casamentos turcos, é frequente a negociação entre famílias, o pagamento de dote simbólico e festas grandiosas, regadas a música e dança. Nos casamentos ciganos, também há rituais de aprovação familiar, a valorização da virgindade feminina, presentes de ouro e comemorações que podem durar dias, com música no centro da celebração. Em ambas as culturas, o matrimônio é menos um ato individual e mais um evento coletivo, de reafirmação da identidade cultural.
Liderança comunitária
Assim como os turcos, que historicamente se organizaram em torno de líderes tribais e religiosos, os ciganos mantêm até hoje a figura do vajda ou baro — o chefe do grupo, geralmente escolhido por sabedoria e experiência. Entre os turcos, líderes locais e religiosos exercem papel central na mediação de conflitos e na manutenção da tradição. Entre os ciganos, o líder também é a voz final em disputas internas, sendo responsável por preservar os costumes e manter a coesão do grupo.
Costumes e vida social
A vida cotidiana revela ainda mais paralelos: o violino cigano e o saz turco embalam celebrações, ambos carregados de improviso e emoção; a tradição oral permanece como elo entre passado e presente; e o orgulho identitário funciona como escudo contra séculos de perseguições, mantendo vivas práticas ancestrais.
O caminho religioso dos turcos até o Islã
Um dos aspectos que consolidou a identidade turca foi a adoção do Islã como religião predominante — uma transição marcada por séculos de transformações.
Os povos turcos nômades, vindos da Ásia Central, praticavam o tengrismo, religião xamanista centrada no culto ao céu, à natureza e aos ancestrais. Ao longo das migrações, parte deles entrou em contato com budistas e cristãos, absorvendo elementos dessas crenças.
A conversão ao Islã ganhou força a partir do século IX, intensificando-se no século XI com os turcos seljúcidas. Essa nova identidade se consolidou de forma definitiva no período otomano, quando o Islã tornou-se não apenas religião, mas fundamento político e cultural de um império que se estendeu por três continentes.
Atualmente, a Turquia é um país de maioria muçulmana, mas que preserva a pluralidade herdada da convivência com cristãos ortodoxos, judeus e até comunidades romani muçulmanas e cristãs.

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